
Li “O Fim da Eternidade” em menos de uma semana. Reli boa parte dele no tempo que completou este ciclo de sete dias, e publiquei hoje minha resenha oficial com spoilers contidos no Ambrosia, você pode conferir clicando aqui. Mas diante de tamanha obra prima da ficção-científica, percebi que tinha algo mais à falar. Portanto, o farei neste post. Mas aviso-te: Se você não leu “O Fim da Eternidade”, pare por aqui, porque os parágrafos seguintes contêm MUITOS SPOILERS.
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Começemos já na parte final, pois os fatos que pretendo comentar referem-se principalmente à última conversa de Harlan e Noys. A narração dos episódios que culminam na brilhante dedução de Harlan – sobre a verdadeira identidade de Cooper e o tempo nativo de Noys – acompanha toda a visão de Asimov, deveras mente aquém de seu próprio tempo. Muitos podem contrapor a frase anterior lembrando-se das tecnologias “avançadas” retratadas no livro, como os computadores utilizarem os finados cartões perfurados de outrora, por exemplo. Mas a maioria das idéias é por demais maduras e tal crítica faz-se desnecessária e totalmente incabível. Tanto as que dizem respeito sobre o comportamento humano, quanto sobre as que expõem o futuro incerto e fatídico da humanidade. O ser humano realmente tem a mania de assumir a responsabilidade, tentando estipular o que é melhor para todos, mas este conto nos mostra que na verdade, nada sabemos. Não temos certeza nem quando temos certeza que temos certeza.
Isso fica perfeitamente claro nos dois capítulos finais. Quando Noys se revela habitante dos Séculos Ocultos, vemos o quão a Eternidade – que até então aparentava ser uma entidade à prova de falhas, quase como a perfeição e a plenitude da evolução humana – é fraca e sem lógica. A prática de sacrificar algo aparentemente sem propósito, como as pesquisas em viagens espaciais, fez com que a humanidade terminasse. Isto expressa uma bela metáfora da vida: É comum acharmos que estamos protegendo alguém ou que sabemos o que é melhor para nós ou para nossos semelhantes, mas nós não sabemos. E nunca eis de sabermos. No conto, Harlan só soube que sua “casa” errara, porque a própria poesia da história (as viagens no tempo) permitiu que este o fizesse. Noys revela que na sede de se auto-proteger, de se auto-preservar, a humanidade destruiu suas mais importantes descobertas, as que possibilitariam sua prosperidade no futuro longínquo. A humanidade havia se acomodado, vivendo em sua casca perfeita de entrelaços de distorções do continum. Desta forma as colônias espaciais foram adiadas em muitos séculos, e outras raças se desenvolveram à ponto de explorar nossa Galáxia e habitar nosso planeta, nos eliminando e extraindo nossos recursos. É interessante observar que Asimov expõe outro paralelo às descobertas científicas: Noys diz que em vários séculos distintos a humanidade se interessava pelo espaço, um interesse sem lógica com os olhos dos Eternos.
Justamente por este motivo que a Eternidade sacrificava as evoluções de astronáutica em função de uma realidade mais “feliz” e estável. Agora, pensemos por um instante, quantas teorias e descobertas de pensadores (isto no mundo real) incompreendidos em sua época são desacreditadas e que, 10 ou 20 anos depois se tornam uma ampliação de fronteiras da ciência? (vide a Teoria da Relatividade Geral de Einstein) Asimov, em sua crítica, coloca que as descobertas que aparentemente não fazem sentido de existirem, na verdade, têm um propósito para tal. A história toda converge para esta conclusão, apesar da idéia ser apresentada nas últimas 30 páginas.
A profundidade da narração nos faz delirar diante de tamanha visão e conceitos. É de fato um deleite tanto para os apreciadores da boa ficção-científica quanto para os entusiastas da filosofia e psicologia. Asimov conseguiu extrair a essência do comportamento humano e inseri-la à uma narrativa rica e que tinha tudo para ser por demais confusa, visto que o próprio tema permite tal comportamento. Mas como percebemos, a mesma constitui a fração intemporal da mente brilhante do maior escritor de ficção-científica que o universo um dia sonhou em conceber.
Tags: Filosofia, Isaac Asimov, O Fim da Eternidade, Review
Junho 15, 2009 às 7:54 pm
Parabéns pela resenha, Rafaell. Eu gosto muito de Asimov e de ficção científica em geral. Mas Isaac Asimov e muitas hiatórias de ficção científica utilizam o futuro, a tecnologia e a ficção para falar de vários assunto como filosofia, política, preconceito e outros pontos que não teriam o mesmo apelo se fosse cotanto como uma simples obra de ficção.
As questões levantadas em outras obras de Asimov ou séries como Jornada nas Estrelas dariam ótimos temas para aulas de filosofia, ciência política e outros assuntos interessantes devido as questões levantadas nessas obras.
Junho 15, 2009 às 9:18 pm
Obrigado, Marcellus. Sim, concordo plenamente contigo. Muitas obras de ficção-científica utilizam destes enfoques. Mas neste livro em especial, achei que tais idéias casaram perfeitamente bem com a trama. Sabe, elas faziam parte da história, agindo quase como personagens.
Nunca tinha visto estes assuntos empregados desta forma. Esta para mim, é uma das maiores obras de ficção-científica e talvez a melhor obra de Asimov. =)
Junho 17, 2009 às 2:01 pm
Eu cito este livro em um dos textos do meu blog, Eterno, que fala sobre da enternidade em vários sentidos.
Junho 29, 2009 às 12:39 pm
[...] DA ETERNIDADE“, é uma leitura muito boa. Vale a pena ler o que o Rafaell Reboredo comenteou, A Obra Prima de Asimov. Esse livro deve ir para o [...]