
Já li incontáveis artigos sobre religião. Uns afirmando que a crença religiosa cegava o povo, manipulava os homens os submetendo a certos dogmas contraditórios, e outros dizendo que tal prática só causava benefícios, aproximava as pessoas e as fazia mais solidárias umas às outras.
Eu sou agnóstico. Não afirmo nada a respeito da existência de um ser onipotente e onisciente, apesar de achar que tal ente tenha chances mínimas de existir. Não tenho nada contra as práticas religiosas de maneira isolada, vejo isso como algo íntimo, que assim como uma infinidade de coisas, é passível de ser praticado junto a uma aglomeração, mas não de maneira aberta. Entenda isso como algo que deva ser praticado de forma indireta, oculta. Obviamente, devido à própria definição de liberdade e estado. Rousseau disse que todos assinamos um contrato social e que somos livres perante as leis que nos regem. Todo o estado deve ser laico e acolher a todos os tipos de crença. Independentemente das discussões sobre o que é bom ou ruim, um país não deveria assumir nenhum tipo de posição religiosa, isso poderia ser encarada como uma forma de exclusão. Quando se assume que uma fração da população, seja ela grande ou pequena, milita certo tipo de prática religiosa e tal nação adere a esta militância, em algum momento, esta atitude prejudica algum grupo de cidadãos.
A meu ver, tal preceito deveria ser superior a qualquer bagagem cultural. Você provavelmente já percebeu qual é o meu objetivo nesta discussão: Porque temos uma semana santa e feriados nacionais religiosos, se por definição, o estado é laico?
Bom, se vivemos em um estado democrático, e, supondo que a maioria da população seja católica, temos uma vontade de um grupo suficientemente grande, fazendo com o que estamos discutindo aqui aconteça, pela própria definição de democracia, certo? Não, errado. Se a maioria da população achar que deva receber do governo uma garrafa de aguardente por mês, isso deve acontecer? Também não. Porque para tudo existem limites. As leis são feitas para que o homem possa viver em sociedade da maneira mais livre possível, mas esta não é uma liberdade plena, pois a plenitude no ato liberal limita as ações de seus conviventes. Se tal ação sua impede de que o outro seja livre, você está infringindo o contrato social. Pois bem, se temos feriados religiosos, porque não podemos ter o dia de beber cachaça, se a maioria da população agrada da bebida? Percebe a contradição?
Esta simples discussão sobre o que o estado deve ou não conceber como público nos incita a perceber o quão contraditório é o sistema. Se, em um acontecimento tão culturalmente popular, as leis de convívio falham de maneira tão abertamente, como podemos estipular o que é certo ou errado? Ignoramos as normas, pois o “problema” em questão não nos atinge de maneira incômoda? Algo me diz que este é um comportamento errôneo da nossa parte. Todas estas suposições, obviamente, estão limitadas por minha deplorável ignorância, a limitação que todos temos. Não sou estudioso de filosofia ou direito, talvez seja por isso que eu não consiga enxergar tal fato de maneira tão clara, e infelizmente, seja incapaz de formular uma reposta para a pergunta em negrito.
Bom feriado.
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